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Entre despedidas e recomeços: um olhar emocional para o fim de ano

O fim de um ano costuma carregar mais do que datas no calendário. Para muitas pessoas, esse período desperta reflexões profundas, expectativas, planos e também frustrações. A virada parece prometer um recomeço -como se, junto com o novo número do ano, viesse a chance de organizar a vida por dentro.

Para a psicóloga Elen Dias, esse movimento não acontece por acaso. Segundo ela, a virada do ano funciona como um marco simbólico, uma forma que encontramos de organizar o tempo, a vida e as expectativas.

“O dia muda, mas os processos seguem, pedindo escuta, tempo e elaboração. Talvez por isso esse período desperte tantos planos, promessas e expectativas. Não necessariamente porque queremos mudar, mas porque existe um desejo, às vezes silencioso, de querer que algo se organize melhor por dentro. Uma aposta de que o próximo ano possa trazer mais realização, felicidade plena e completude.”

Esse desejo, muitas vezes silencioso, carrega também a esperança de realização plena, de felicidade e de completude, mesmo sabendo, lá no fundo, que a vida raramente oferece fechamentos definitivos. “Seguir desejando também é parte do que nos mantém vivos”, reflete a psicóloga.


Simpatias, rituais e o desejo de controle

Ao pensar no fim de ano, Elen lembra das tradicionais simpatias: pular ondas, comer lentilha, escolher cores. Pequenos rituais que atravessam gerações e revelam a tentativa humana de lidar com o desconhecido.

Mas a psicóloga amplia o sentido da palavra e propõe uma reflexão mais profunda: a simpatia não apenas como ritual, mas como modo de relação -com o outro e consigo mesmo.

“Até que ponto esperamos que algo externo resolva aquilo que, na vida cotidiana, depende das nossas escolhas? O que, de fato, temos feito para nos aproximar do que faz sentido para nós? E quanto do que chamamos de sucesso está mais ligado a corresponder expectativas, agradar ou buscar reconhecimento do que a sustentar um desejo próprio?

Talvez a simpatia que mais precisamos não seja a do ritual, mas a de sermos mais simpáticos no sentido afetivo: menos duros, menos exigentes, mais disponíveis ao encontro e ao erro.”

Para ela, quando não temos controle sobre o futuro, o cuidado pode estar justamente em como nos colocamos diante dele: com mais escuta do próprio desejo e menos submissão a padrões que prometem aprovação, mas nem sempre trazem realização.


Expectativas, metas e a pressão do novo ano

O início de um novo ano costuma ser carregado de projeções. Há uma expectativa quase coletiva de que algo grandioso aconteça, de que uma mudança externa finalmente dê sentido a tudo o que ficou pendente. Diante disso, Elen convida a uma pergunta essencial:

“O que, afinal, estamos tentando garantir quando esperamos tanto do próximo ano?”

Ela compartilha uma frase que sempre a atravessa nesse período:
“E se acordássemos amanhã apenas com aquilo que agradecemos hoje?”

Não como obrigação, mas como um convite à honestidade emocional. O desejo genuíno, explica, costuma nascer do que tem valor afetivo real. Já a pressão social vem acompanhada de comparação, culpa e da sensação constante de estar em dívida com o próprio tempo.


Quando tudo vira meta, o caminho perde valor

Em meio a listas de metas e resoluções, muita coisa acaba ficando para trás: os processos, os afetos, os desvios e até as pequenas alegrias que não cabem em planilhas.

“Quando tudo vira meta, o caminho perde valor. E, muitas vezes, perdemos também a possibilidade de escutar o que muda em nós enquanto caminhamos.”

Ela lembra um trecho da música Era uma vez, de Kell Smith:
“Entender que a felicidade mora no caminho e não no final.”

Num mundo cada vez mais apressado, Elen deixa uma provocação:
sabemos mesmo para onde queremos ir, ou apenas estamos correndo?


Respeitar os próprios processos

Nem tudo amadurece no tempo que gostaríamos. Frustrações, segundo a psicóloga, também informam limites, perdas e lutos necessários.

“Há coisas que não se resolvem com esforço extra. Frustrações também informam limites, perdas, lutos necessários. Olhar para isso com menos julgamento e mais curiosidade pode ser um começo.”

E, muitas vezes, não se trata de aprender a valorizar o que já foi conquistado, mas de perceber o quanto estamos ocupados demais desejando o próximo passo.

“Quando estamos sempre olhando para o que falta, o presente vira passagem, e não morada. E aí fica difícil reconhecer que muitas das coisas mais importantes já estão aqui, sustentando a vida silenciosamente, sem fazer barulho de conquista.”


O que faz um ano ser bom?

Para Elen, não é preciso escolher entre resultados ou processos. Ambos importam. Os resultados dão direção, mostram onde investimos nosso desejo e nosso tempo. Mas um ano não se sustenta apenas pelo que se alcança.

“Muitas vezes, o que chega como resultado é efeito da forma como escolhemos atravessar o percurso: com quem caminhamos, como lidamos com as frustrações, com que pressa — ou com que presença.”

Talvez, sugere ela, a pergunta não seja se o ano foi bom ou ruim, mas se houve sentido ao longo do caminho. “Se houve espaço para desejar, para se perder um pouco, para seguir mesmo sem todas as respostas. Se, em meio às tentativas, algo em nós permaneceu vivo”, incentiva a reflexão.


Olhar para o ano que se despede

Antes de olhar para o novo ano, Elen defende a importância de fazer uma pausa e revisitar o que passou com mais carinho.

Ela compara esse momento a abrir o guarda-roupa com calma: não para descartar tudo, mas para olhar peça por peça -o que ainda serve, o que precisa de ajuste, o que já não faz mais sentido e aquilo que é essencial.

“Sem esse olhar, seguimos apenas acumulando, repetindo, vestindo histórias que já não cabem. Com ele, talvez possamos escolher com mais cuidado o que levamos adiante, não por obrigação, mas por reconhecimento do que faz sentido para o nosso eu hoje.”

Encerrar um ano, afinal, não é sobre fechar tudo com perfeição, mas sobre reconhecer a própria caminhada. E, quem sabe, entrar no novo tempo com um pouco mais de gentileza consigo mesmo.

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