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Quando a imaginação das crianças encontra o papel, nasce um mundo que só elas conseguem construir

Na Feira do Livro de Arroio do Sal, entre estandes coloridos, risos apressados e o cheiro de páginas novas, um momento roubou a cena: fileiras dos pequenos escritores sentados, embora tímidos, com seus livros sobre a mesa, canetinha na mão e o coração disparado.

A fila do outro lado da mesa se estendia… eram pais orgulhosos, avós emocionados e uma família inteira vibrando pela estrela literária que nascia naquela tarde. A cada autógrafo, um brilho nos olhos. E a cada brilho, um futuro inteiro se abrindo.

Foi assim que 150 estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professor Raimundo Fernandes de Oliveira viveram um dos dias que, com certeza, guardarão para sempre: o lançamento dos próprios livros, produzidos através do projeto Estante Mágica.

A semente que virou livro

Para a diretora Lucinéia Happeck, ou Profe Lu, o projeto é mais que uma atividade escolar: é uma forma de continuar aquilo que a Raimundo faz há anos, formar leitores. “Os alunos se sentem mais motivados a ler quando eles mesmos começam a produzir”, destaca e acrescenta: “é uma sementinha que a gente planta, e que vai florescendo na escrita, na criatividade, na autonomia.”

A escola já tem, diariamente, dez minutos dedicados à leitura, um hábito que faz parte da rotina da instituição. Mas, com a escrita dos livros, algo diferente aconteceu: as crianças passaram a se ver como parte da literatura, não apenas leitoras, mas criadoras. E, segundo a diretora, o reflexo disso foi visível: “Não tem explicação o brilho nos olhos. Eles treinaram autógrafos em casa, se arrumaram com carinho, trouxeram a família… É algo que vai ficar para a vida toda.”

Quando a professora vira ponte para mundos imaginários

No 1º ano da escola, a professora Fernanda Nunes foi quem guiou a jornada dos pequenos autores. A ideia inicial era outra. Mas a escuta transformou o rumo e transformou a turma junto. “Quando comecei a conversar com eles, percebi que tinham suas próprias histórias para contar”, conta e acrescenta: “foi especial ver o brilho nos olhos quando entenderam que aquele livro seria deles.”

Os temas escolhidos? Planetas, dinossauros e princesas, um universo tão diverso quanto as personalidades da sala. Os processos? Democráticos. A Professora explica que eles votaram, discutiram, reorganizaram personagens e reinventaram enredos. A cada capítulo, mais entusiasmo. A cada página, mais pertencimento.

Fernanda resume o que viu e sentiu: “foi um pacote completo de aprendizado, com leitura, escrita, criatividade, oralidade, escuta, convivência. E tudo isso de forma leve, bonita, verdadeira.”


NOAH GIOVANAZ, 6 anos, 1º ano
Noah descobriu o poder de criar mundos quando sua turma inventou uma aventura que começa no planeta Gosminha e termina com a vitória sobre um vilão que ameaçava o planeta Dourado. Ele fala da história com simplicidade, mas seus olhos denunciam o encantamento: “Cada um tirou uma ideia”, conta, como quem sabe que pequenas imaginações podem se transformar em algo grande. Ao ver o livro pronto, disse apenas “achei legal”, mas quando conta a parte favorita -o momento da comemoração pela vitória-, sua expressão muda, revelando que ele viveu essa história de verdade.

O grande momento, porém, foi o dia da sessão de autógrafos. Sentado, canetinha na mão, Noah ficou “um pouco nervoso”, mas ganhou coragem ao ver o irmão, os pais e os avós na fila por um autógrafo seu. No fim, conta com orgulho: “A parte mais legal foi autografar”. Agora, ele já planeja um novo livro que será a sequência da edição. Mas, antes de encerrar a conversa, faz questão de agradecer às professoras “porque elas me ensinaram”. Noah descobriu que pode escrever o próprio universo, e isso, para quem tem seis anos, é tão especial quanto derrotar qualquer vilão imaginário.


Emilli Dias, 11 anos, 6º ano
Emilli transformou suas vivências em literatura ao escrever: Diário de uma jogadora de vôlei. A escolha do tema nasceu da própria trajetória: “Eu já joguei vôlei”, explica, e assim o esporte virou história, memórias e sonho. Para ela, participar do projeto foi “incrível e legal”, algo que vai levar para a vida toda. Ao descobrir que teria um livro publicado, correu para contar à mãe e foi naquele instante, ao ouvir “a mãe fica muito feliz por ti”, que se sentiu, de verdade, autora: “Agora sim, eu sou uma ‘autoraaa’”.

A parte mais difícil foi desenhar. “Sou péssima no desenho”, brinca. Já a mais divertida foi passar tudo para os Chromebooks. Agora, já planeja a ‘parte 2’, envolvendo: campeonato, fé, e a invernada, que fazem parte de quem ela é. Emilli resume sua própria jornada em uma frase que parece escrita para inspirar outras crianças: “Confia no processo e não desiste. Se você quer, você consegue.” No dia da sessão de autógrafos, viveu um capítulo especial. Ela se arrumou, releu sua história e encontrou na plateia sua mãe, avó, tias e primos, todos orgulhosos.

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