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Entre a ciência e a fé: tratamento experimental para lesão medular chega a Arroio do Sal

Uma mobilização intensa diante do tempo limitado, decisões difíceis, mobilização familiar e uma esperança que nasce da ciência brasileira. Foi assim que um morador de Arroio do Sal, com menos de 40 anos, deu início nesta semana a um tratamento experimental que pode abrir novos caminhos para pessoas com lesão medular.

O paciente, que teve uma lesão considerada grave e completa na medula, iniciou a aplicação da chamada polilaminina: uma proteína desenvolvida a partir de pesquisas lideradas pela cientista Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para preservar sua identidade, o nome não será divulgado. Mas a história, ah, essa já mobiliza toda a comunidade.

Um processo marcado pela urgência

O caminho até o procedimento começou antes mesmo da atuação médica direta. Desde o diagnóstico, familiares e amigos iniciaram uma mobilização em busca de alternativas, motivados pelas informações que já circulavam sobre a polilaminina. O primeiro passo foi o contato com o laboratório responsável, no Rio de Janeiro, para verificar se o paciente atendia aos critérios necessários para o tratamento.

A partir disso, teve início uma etapa judicial conduzida por um familiar advogado, Franccesco Possebon de Souza, que viabilizou o acesso à medicação dentro do prazo considerado ideal -fator decisivo, já que os estudos indicam melhores respostas quando a aplicação ocorre até 90 dias após a lesão. Somente após a autorização judicial é que a equipe médica passou a atuar diretamente no caso, dando continuidade aos encaminhamentos necessários.

Marlon Cenci, médico responsável pelo acompanhamento, explica que o encaminhamento para o tratamento veio diante da gravidade do quadro e da ausência de alternativas eficazes dentro da medicina convencional. “Era uma lesão completa, com perda total de movimento e sensibilidade. A gente buscava uma alternativa”, explicou.

Foram laudos médicos detalhados, envio de documentação ao laboratório responsável, articulação com representantes da indústria farmacêutica e, principalmente, uma etapa judicial complexa. Como o tratamento ainda é experimental e não possui liberação padrão, foi necessário obter autorização específica, com responsabilidade assumida pela família e pela equipe médica.

A liberação saiu em poucos dias. E então, tudo precisou acontecer rápido.

Um desafio coletivo

Após a liberação da medicação, surgiu outro obstáculo: encontrar um hospital com estrutura e equipe capacitada para realizar o procedimento.

Foi nesse momento que a articulação local fez a diferença. A enfermeira Greice Bueno Cunha Gonçalves, coordenadora assistencial do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes/ IBSAUDE, de Torres, RS, teve papel fundamental ao abraçar a iniciativa e ajudar a viabilizar a aplicação na região. Com o apoio da equipe médica e estrutura hospitalar adequada, o procedimento foi realizado ainda na última quinta-feira, dia 16.

A intervenção contou com a atuação do neurocirurgião Luiz Felipe Lobo Ferreira, com participação do médico pesquisador da UFRJ, Olavo Borges Franco, além da própria equipe responsável pelo desenvolvimento da técnica, liderada pela cientista Tatiana Coelho de Sampaio.

O paciente de Arroio do Sal realizou o procedimento com acompanhamento do médico Marlon Cenci e do ortopedista Mateus Vogado, na estrutura hospitalar da cidade vizinha, consolidando a capacidade local para receber intervenções de alta complexidade.

Riscos, limites e responsabilidade

Por ser uma tecnologia recente, os efeitos a longo prazo ainda são desconhecidos. Os principais riscos imediatos, conforme Marlon envolvem: o próprio procedimento cirúrgico; e possíveis reações inflamatórias ou alérgicas. Além disso, não há garantia de resposta. “Cada organismo reage de uma forma. A medicina não é matemática”, destaca. Por isso, o tratamento só é realizado com consentimento formal, dentro de critérios rigorosos e, neste caso, com autorização judicial.

E agora?

Se até aqui foi uma maratona, o que vem pela frente exige ainda mais paciência. O tratamento não termina na cirurgia. Agora, o paciente inicia uma nova etapa baseada em:

  • fisioterapia intensiva
  • acompanhamento multidisciplinar
  • monitoramento constante com especialistas

E, acima de tudo, fé. “O próximo passo é ter fé e seguir com a reabilitação. A gente torce por um prognóstico favorável”, resume o médico.


Um avanço que chega perto

Mais do que um caso individual, o procedimento marca um momento importante para a região. Ele demonstra que o litoral norte gaúcho possui estrutura, profissionais e capacidade para receber tratamentos de alta complexidade. E, também, levanta um debate maior: a importância do investimento em pesquisa científica no Brasil. “Se queremos avanço na medicina, precisamos investir em pesquisa. Esse é um exemplo claro disso”, pontua Marlon.

O que é a polilaminina?

A polilaminina é uma substância experimental baseada na laminina, proteína já existente no corpo humano. Na prática, ela atua como uma espécie de “ponte biológica”. Quando ocorre uma lesão na medula, os neurônios responsáveis pela transmissão dos estímulos se rompem e o corpo não consegue reconstruir essa conexão sozinho.

A proposta do tratamento é justamente essa: criar um caminho para que os sinais nervosos voltem a passar. “Ela funciona como um andaime, ajudando o corpo a reconstruir essa conexão entre os neurônios”, explica o médico Marlon Cenci.

A aplicação é feita diretamente na área da lesão, com o objetivo de estimular a regeneração das fibras nervosas e reduzir processos inflamatórios. Apesar dos resultados promissores em alguns casos, o próprio médico reforça: trata-se de um procedimento ainda em fase experimental.


Entre a esperança e a consciência do processo

“O assunto da polilaminina já estava em alta. Desde o diagnóstico, houve uma forte mobilização de familiares e amigos para buscar o tratamento. O primeiro passo foi entrar em contato com o laboratório, no Rio de Janeiro, para confirmar que ele atendia aos requisitos. Depois disso, a solicitação foi feita via judicial”, relata um familiar.

Para a família, a polilaminina representa uma esperança de recuperação gradual dos movimentos: “sabemos que cada corpo reage de uma forma e que não se trata de milagre. Mas confiamos na ciência para buscar mais qualidade de vida.”

Segundo a família, o paciente já vinha apresentando respostas positivas com a fisioterapia antes mesmo do procedimento, com sinais de melhora em sensibilidade, força e movimentos. “A rede de apoio foi determinante. Sozinhos, não teríamos acesso à informação e à agilidade necessárias. Amigos e familiares se fizeram presentes desde o início, e cada gesto tem nos ajudado a seguir com fé e esperança”, destaca.

Agora, o foco está na continuidade do tratamento. “A próxima etapa é intensificar as fisioterapias e acompanhar como o corpo irá responder”, finaliza o familiar.

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