Aos 14 anos, Rafael Schardosim Caldas já tem rotina de atleta e um objetivo que não deixa espaço para dúvidas: chegar às Olimpíadas. Mas, nem sempre foi assim. Antes de conhecer o atletismo, ele não praticava nenhuma atividade esportiva. Hoje, treina cinco vezes por semana, faz reforço muscular, pilates e organiza sua rotina em torno de um propósito.
O interesse pelo esporte começou no contraturno escolar, dentro do Projeto Multiesportivo e Cultural, o Promec, que é uma iniciativa da Prefeitura de Arroio do Sal que vem transformando a realidade de centenas de jovens da rede municipal de ensino. “Se eu não tivesse começado, eu não seria nem perto do que eu sou hoje”, afirma Rafinha -como é chamado.
O Promec oferece atividades esportivas para estudantes da rede municipal fora do horário de aula. Mais do que ocupar o tempo livre, o projeto se propõe a criar caminhos e, muitas vezes, mudar destinos.
Entre quedas e recomeços
A trajetória de Rafael não foi linear.
Depois de começar a treinar e evoluir rapidamente, ele enfrentou uma lesão que interrompeu seu desenvolvimento. Foram meses de tratamento, fisioterapia e adaptação. Um momento que poderia ter afastado ele do esporte, mas não foi isso que aconteceu. Ele voltou e voltou diferente.
Hoje, além de treinar, também ajuda nos treinos, incentivando colegas mais novos. Dentro da pista, já não é apenas um aluno, começa a assumir um papel de liderança.
O que vem pela frente
As competições fazem parte da rotina dos alunos que participam do projeto. Jogos escolares, corridas de rua e campeonatos estaduais surgem ao longo do ano, muitas vezes a partir de convites e parcerias, já que o projeto não é uma associação formal e precisa do apoio de entidades de outras cidades para participar de determinadas competições.
Rafael, agora, se prepara para novos desafios. Entre eles, a possibilidade de disputar provas de 800 metros e participar de seletivas importantes. Neste fim de semana, inclusive, estará participando do Troféu Teutônia de Atletismo. Além dele, outros atletas de Arroio do Sal também estarão lá: Kailon Rodrigues e Kaleb Munhoz.
Quando fala sobre o futuro, ele não fala em possibilidades, fala em certeza: “Eu não chamo de sonho. É uma obsessão. Eu vou chegar nas Olimpíadas.”
Enquanto isso, ele destaca que o aprendizado é o que impulsiona a seguir cada vez melhor. “É uma coisa incrível ver que, além de aprender a correr, a gente aprende a conviver com outras pessoas, a falar com outras pessoas e, parece, que é assim que agente vai evoluindo pra vida adulta”, observa e acrescenta: “e, até mesmo depois de grande, a gente vê que nós também aprendemos com as crianças.”

–Rafael Caldas
Um lugar para ficar
No fim, talvez o mais importante não esteja nas medalhas, nos tempos ou nos resultados… Está no que fica, nos vínculos criados, na rotina construída e na direção que antes não existia.
Quando perguntado sobre como descrever o Promec, Rafael não pensa muito: “Família”. E, ele explica: “a família torce por você, te dá parabéns guando ganha e quando não ganha incentiva a treinar e ganhar na próxima vez.”

Quando tudo começou…
Muito antes de existir como programa estruturado, o que hoje é o Promec começou com uma ideia simples e muita vontade. Em 2017, o professor de educação física Élton Dias decidiu tirar um projeto do papel: levar o atletismo para os alunos da rede municipal. Não havia pista, não havia estrutura, mas, havia disposição.
As aulas aconteciam onde fosse possível: na ciclovia, em campos de futebol, em ruas próximas às escolas. O professor percorria diferentes comunidades ao longo da semana, levando a proposta diretamente até os alunos. Era o início de algo que ainda não tinha nome, mas já tinha propósito.
Com o tempo, vieram os primeiros resultados. Alunos começaram a participar de competições escolares, corridas de rua e, aos poucos, alguns se destacaram. Depois da pausa imposta pela pandemia, o projeto voltou em 2022. Dessa vez, com mais organização, transporte para os alunos e uma pista disponível. Foi nesse momento que a iniciativa passou a integrar oficialmente o Promec, ampliando seu alcance.
Hoje, a oficina de atletismo atende cerca de 50 jovens. Somando todas as modalidades, o programa alcança centenas de estudantes.
Mais do que esporte
Na prática, o que acontece ali vai além do que se vê. O treino ensina mais do que correr. Ensina a esperar, a perder, a tentar de novo e a conviver. “O objetivo é trazer eles para o caminho do bem, longe das más influências, das drogas, e perto da atividade física, do convívio e de algo que faça sentido pra vida deles”, explica o professor.
Para muitos, o projeto representa o primeiro contato com disciplina, rotina e pertencimento. Não é raro que o professor ocupe múltiplos papéis: treinador, conselheiro, incentivador. Às vezes, até algo próximo de uma figura familiar. E, isso, aparece nas histórias que ele compartilhou com a reportagem.
Histórias que a pista revela
Cada aluno carrega uma trajetória. Algumas são de descoberta e outras, de superação. Há quem tenha começado sem saber o que era atletismo e hoje colecione títulos estaduais e nacionais. Há quem tenha viajado pela primeira vez graças ao esporte, conhecendo outras cidades, outros estados e até outros países.
Contudo, algumas histórias atravessam qualquer resultado. Como a de um de seus pequenos atletas.
Élton lembra que a criança em questão, enfrentou uma leucemia. Passou meses em tratamento, longe da rotina que deveria ser comum para a sua idade. Hoje, ele corre… Corre provas longas, participa de competições e disputa lado a lado com atletas de diferentes idades. Para quem acompanha de perto, é impossível não se emocionar. “É um milagre”, resume o professor.
Mais de 300 crianças beneficiadas
O contraturno escolar em Arroio do Sal vem ganhando um novo significado para centenas de crianças e adolescentes. Por meio do Projeto Multiesportivo e Cultural (Promec) e do Centro Municipal de Educação Integral (Cemei), a Prefeitura oferece atividades esportivas e culturais que vão além da sala de aula, promovendo inclusão, saúde e desenvolvimento pessoal.
Atualmente, conforme divulgado no site do Executivo, o Plano de Trabalho do contraturno atende 308 alunos da rede municipal. Entre as modalidades oferecidas estão futebol de campo, futsal, jiu-jitsu e tênis de mesa, todas orientadas por profissionais e com foco no desenvolvimento físico, motor e socioemocional dos participantes. Mais do que ensinar técnicas esportivas, documento explica que o contraturno busca fortalecer valores como disciplina, respeito, trabalho em equipe e autoestima, além de contribuir para a prevenção de situações de vulnerabilidade social.
A proposta surge justamente da necessidade de ampliar as oportunidades para os alunos no período em que não estão em sala de aula. Conforme o plano de trabalho, muitos estudantes não tinham acesso a atividades esportivas orientadas, e o programa vem para suprir essa demanda, oferecendo um ambiente seguro, estruturado e acompanhado.
Com execução prevista até dezembro, o Promec e o Cemei se consolidam como importante política pública voltada à formação integral de crianças e adolescentes no município.










