A farda imprime responsabilidade e seriedade. É símbolo de autoridade, disciplina e compromisso com a segurança da comunidade. Mas, nos detalhes, a feminilidade se revela. No batom discreto, nas unhas bem cuidadas, nos acessórios usados com sutileza -sinais de uma mulher que, mesmo dentro da rigidez da instituição militar, mantém sua identidade. Isso, porém, não diminui a força da presença.
À primeira vista, alguns podem imaginar que, por ser mulher, a abordagem será mais suave. Basta alguns minutos de atuação para perceber que, quando a Soldado Bruna Garcia se posiciona, a ordem se estabelece. Com firmeza, preparo e respeito, ela mostra que autoridade não depende de gênero e, sim, de postura, vocação e responsabilidade.
Com 33 anos, Bruna atua na Brigada Militar em Arroio do Sal desde outubro de 2025. Natural de Santo Ângelo, nas Missões, ela já soma quase oito anos de atuação na instituição, sendo dois no litoral norte do Estado.
Um sonho que nasceu na infância
Bruna lembra com clareza do momento que despertou sua vocação. Ela tinha entre oito e nove anos quando viveu uma situação difícil e a família precisou da ajuda da Brigada Militar. Quem atendeu a ocorrência foi uma policial mulher.
A imagem daquela mulher fardada ficou gravada na memória da menina. “Eu perguntei para ela o que eu precisava fazer para ajudar as pessoas, para ajudar as crianças”, lembra. A resposta foi simples e direta: estudar. A policial explicou que havia várias formas de trabalhar na segurança pública e que o caminho começava pelos estudos. “Ela disse que eu ainda era muito nova, mas que se eu quisesse ajudar as pessoas eu precisava estudar”, lembra.
Bruna levou o conselho a sério.
Determinada a seguir carreira na área da segurança pública, ela ingressou no curso de Direito. Durante os cinco anos de faculdade, manteve o foco nos estudos e na preparação para concursos. No último ano do curso surgiram editais para a área da segurança pública. “Eu resolvi arriscar”, conta e acrescenta: “a gente nunca sabe se está preparado para uma prova até fazer.”
Ela passou mas a aprovação na prova foi apenas o começo. O ingresso na Brigada Militar envolve diversas etapas: exames médicos, testes físicos, avaliações psicológicas e, por fim, o curso de formação.
O curso de formação é o momento em que o futuro policial aprende a vivência militar. Ali são ensinadas disciplina, conduta e responsabilidade, além de treinamentos físicos intensos e estudos sobre legislação. “O militarismo exige postura. Para cobrar da sociedade, a gente precisa primeiro entender exatamente o que é certo”, observa.
Durante meses, os alunos enfrentam simulações de situações de risco e aprendem a lidar com diferentes tipos de ocorrências. Tudo isso para preparar o policial para uma realidade que, muitas vezes, é imprevisível.
Ser mulher na segurança pública
Bruna reconhece que, por muito tempo, a sociedade enxergou a mulher como frágil para determinadas profissões. Contudo, destaca que essa visão vem mudando. “No curso de formação não existe distinção entre homem e mulher. Todos recebem o mesmo treinamento”, observa. Para ela, o que define um bom policial não é o gênero, mas a dedicação e o preparo. Tanto é que cada vez mais mulheres ocupam espaços na segurança pública e posições de comando.
Quando uma ocorrência muda tudo
Entre as muitas situações vividas na profissão, uma delas marcou profundamente sua trajetória. Foi o caso de uma menina que sofreu uma tentativa de sequestro e abuso. A criança conseguiu fugir e pedir ajuda. A guarnição estava próxima e realizou o atendimento.
Após a ocorrência, a menina abraçou Bruna e disse algo que ela nunca esqueceu: “Tia, a senhora salvou a minha vida.” A partir daquele dia, nasceu um vínculo. Ela acompanhou a história da menina por anos, manteve contato com a família e esteve presente em vários momentos.
Anos depois, a jovem foi diagnoticada com câncer e acabou falecendo. Mesmo assim, ela continuou próxima da família, o que mostra que o trabalho da polícia não termina na ocorrência.
Por fim, ao olhar para a própria trajetória, Bruna diz sentir orgulho de ter seguido o sonho que nasceu ainda na infância. Ela espera que sua história também inspire outras meninas. “Se é um sonho e é algo que está no teu coração, vale o esforço”, incentiva e enfatiza: “se você sente que essa é sua vocação, vale a pena lutar por ela.”










