Antes das ruas asfaltadas. Antes das casas alinhadas na beira-mar. Antes mesmo de Arroio do Sal ser Arroio do Sal. Iraci Maria Dias já estava aqui.
Hoje, aos 87 anos, ela carrega na memória mais de sete décadas de história vividas no município. Uma história que começou quando ela tinha apenas 15 anos de idade, deixando para trás sua cidade natal, Sombrio, em Santa Catarina, para conhecer uma tia que morava na região da Estância do Meio.
Naquele tempo, vir para Arroio do Sal era uma aventura. Parte do caminho foi feita de carroça. Mas, grande parte da viagem aconteceu a pé, atravessando estradas de chão batido e trilhas estreitas no meio da mata. “Pra chegar aqui tinha só um carreirinho no meio do mato. Era uma trilha estreita que a gente caminhava”, lembra.
Não havia asfalto. Não havia cidade. Havia campo. Dunas. Mato. Algumas poucas casas espalhadas. E, a vontade de conhecer um lugar que mais tarde seria a sua comunidade.
Quando Arroio do Sal ainda era campo
Quando Dona Iraci chegou pela primeira vez, a paisagem era completamente diferente da que existe hoje. “O que tinha era campo. Tinha vaca, boi, ovelha, cabrito. As casas eram longe uma da outra”, compartilha e observa: “na época não tinha mercado, então a gente ia na bodega para comprar alguns biscoitinhos, frutas e verduras.”
Iraci não sabia ainda, mas ali começava a história da cidadee a história dela dentro dela.
O amor que transformou visita em destino
A primeira passagem por Arroio do Sal durou apenas um verão. Depois disso, ela voltou para Sombrio. Porém, não demorou muito para retornar.
Em um pequeno hotel de madeira, na praia de Camboim, onde trabalhou por duas temporadas, Iraci conheceu o homem que mudaria o rumo da sua vida. “Eu tinha 15 anos quando conheci ele”, conta. O namoro começou ali, entre temporadas de trabalho e visitas à família.
Ela voltou para Sombrio mais uma vez. Mas já não era a mesma. Antes mesmo da próxima temporada de verão, decidiu retornar para Arroio do Sal. Ali estava o amor da sua vida. Ali estava o lugar onde construiria sua história. Pouco tempo depois, o casal se casou. “Depois que eu casei, ali com 18 anos, minha vida ficou aqui”, lembra.

O tempo das lavadeiras
Os anos passaram e Arroio do Sal começou a crescer. Mas, naquele tempo, ainda não existiam máquinas de lavar, tanques ou infraestrutura nas casas. A solução era ir até o arroio. Foi na beira do arroio que deu nome a cidade que também nasceu uma das imagens mais tradicionais da história do município: as lavadeiras do arroio. Iraci foi uma delas.
As mulheres colocavam tábuas de madeira na beira da água e passavam horas esfregando roupas. Fosse no verão sob o sol forte ou no inverno enfrentando o frio. “No frio, eu vestia um saco grande, para não molhar tanto os pés e não passar tanto frio”, conta.
O arroio não era apenas um lugar de trabalho, era também um espaço de convivência. Ali as mulheres conversavam, compartilhavam histórias da vida, falavam dos filhos, dos sonhos e das dificuldades. “Às vezes ia duas, três. Às vezes eu ia sozinha, mas sempre que a gente ia, tinha conversa”, salienta.
Nem sempre o trabalho era fácil. Quando a maré subia ou quando vinha uma chuvarada forte, o arroio transbordava e levava as roupas embora: “cansei de ver roupa indo embora com a água.” Mesmo assim, no dia seguinte as lavadeiras voltavam, porque era ali a vida também acontecia.
Uma história que quase se perdeu
Com o passar dos anos, as casas começaram a ganhar tanques e as mulheres deixaram de frequentar o arroio com tanta frequência. E, nessa linha entre não deixar a história se perder, Dona Iraci e outras mulheres decidiram resgatar essa memória. “Essa história já estava quase esquecida”, comenta.
Com a ajuda da professora Ana Beatriz, foi produzido um documentário sobre as lavadeiras de Arroio do Sal. O trabalho foi enviado para um projeto nacional chamado ‘Conhecendo os Brasis’. Entre produções de todo o país, a história das lavadeiras ficou entre as 20 selecionadas. Profissionais vieram ao município registrar a história. “Foi muito bonito. Filmamos em vários lugares., desde o Arroio até a Lagoa”, lembra.
Parte da história da cidade
Além de representar as lavadeiras, Iraci também participou de momentos importantes da formação do município. Ao longo da vida, recebeu homenagens e um troféu reconhecendo sua contribuição para a história de Arroio do Sal. “Eu represento a história das lavadeiras e também o começo do Arroio do Sal”, afirma com orgulho.
Iraci construiu uma grande família em Arroio do Sal. Casada com João Evaldt Dias (in memoriam), teve oito filho e soma 13 netos (sendo dois criados por ela) e cinco bisnetos. Uma família que cresceu junto com a cidade.
A verdadeira faculdade
Quando fala sobre tudo o que viveu, Iraci resume sua trajetória com uma frase simples e profunda: “Faculdade não é só estudar, mas sim, é viver.” Para ela, cada dia ensina algo novo e “cada dia tu sobe um degrau.”
A marca da história
Ao olhar para trás, ela não fala de cansaço. Fala de gratidão. “Minhas rugas e meus cabelos brancos são a marca da minha história”, enfatiza e deixa como mensagem: “que as pessoas sejam honestas, humanas, que ajudem o próximo e nunca percam a fé em Deus. Deus está em primeiro lugar na vida da gente.”










