Legislação estadual regula a atividade e garante segurança nas praias, enquanto pescadores enfrentam desafios e mantêm viva a cultura local
A pesca com redes fixas, como cabos e calões, voltou a ser permitida no litoral do Rio Grande do Sul. Após o período de restrição durante o verão, desde o dia 15 de março os pescadores profissionais podem retomar esse tipo de atividade na orla gaúcha. Em Arroio do Sal, a liberação marca o início de uma das práticas mais tradicionais do município, reforçando não apenas a economia local, mas também uma cultura que atravessa gerações.
A pesca artesanal segue uma legislação estadual, válida para todo o litoral do Rio Grande do Sul. A norma determina que esse tipo de pesca (com redes fixas) fica proibido entre os dias 15 de dezembro e 15 de março, período que coincide com a alta temporada de veraneio. Ou seja, mesmo nas áreas destinadas à pesca, não é permitido manter redes fixas durante esse intervalo.
“A legislação é estadual e foi criada justamente para garantir a segurança nas praias durante o verão”, explica o chefe do Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar, Ricardo Valim. Com o fim desse período, a atividade é retomada, desde desde que respeite as áreas previamente definidas e devidamente demarcadas ao longo da Orla. No total, são 44 pontos de cabos no município.
Convivência na praia
O ordenamento da faixa de areia, adotado no Litoral Gaúcho desde 2009, organiza a convivência entre pescadores, banhistas e praticantes de esportes como o surfe. Segundo Valim, a criação dessas regras foi motivada por acidentes registrados no litoral, o que levou à necessidade de separar os espaços de uso. “Desde a implantação da legislação, não tivemos mais registros de acidentes relacionados à pesca de cabo no litoral norte”, destaca.
A efetividade depende tanto do poder público, responsável pela demarcação das áreas, quanto dos pescadores, que precisam seguir as normas estabelecidas.
Uma atividade de baixo impacto ambiental
A pesca artesanal de beira de praia é considerada uma prática de baixo impacto ambiental, especialmente quando comparada a métodos industriais. “Ela causa um dano muito pequeno se comparada a uma pesca de arrasto, por exemplo”, afirma Valim.
Ainda assim, desafios existem, como o descarte irregular de lixo no mar feito pela população no geral e a captura acidental de espécies protegidas. “Um problema é a questão do lixo. Muitas vezes, vem muito lixo na rede”, destaca e observa: “os pescadores pegam esse lixo e dão a destinação correta, ajudando a manter a praia limpa.”
Falta de jovens acende alerta
Apesar da tradição, a continuidade da atividade preocupa. “Hoje não temos praticamente jovens atuando na pesca”, alerta o representante da Emater. O cenário acompanha uma realidade mais ampla do setor agropecuário, marcada pela saída das novas gerações em busca de outras oportunidades. Ainda assim, há casos de retorno quando o valor do produto local e a conexão com a atividade acabam trazendo novos olhares para a profissão.
Atualmente, em Arroio do Sal há 70 famílias que vivem da pesca, seja da água doce ou salgada.
Uma economia que nem sempre aparece
Mesmo com impacto significativo, a pesca ainda é pouco visível nos dados oficiais. Estimativas extraoficiais indicam que a atividade pode movimentar um valor de mais de R$ 1 milhão por ano em Arroio do Sal, considerando a produção e a comercialização direta. “A pesca é uma economia invisível. Muitas vezes esse peixe é consumido pela própria família ou vendido diretamente, o que dificulta mensurar esse valor”, explica Valim.

Valorizar para manter viva
Com a atividade novamente em andamento, o chefe da Emater reforça a importância de valorizar o pescador e o produto local. Para ele, o incentivo ao consumo de pescado da região e o reconhecimento da pesca como parte da identidade cultural do município são apontados como caminhos fundamentais para garantir sua continuidade. “A tendência é que esses produtos sejam cada vez mais valorizados. E isso pode ajudar a manter a atividade viva ao longo dos anos”, conclui Valim.
Entre redes, tradição e desafios: a pesca em Arroio do Sal
Da primeira puxada ao fim do dia, pescadores enfrentam desafios e mantêm viva uma tradição que atravessa gerações
Duas vezes por dia, eles estão lá. Por volta das 6h15, ocorre a primeira puxada do cabo de pesca. Às 16h30, a segunda. É nesse ritmo que a rotina dos pescadores de Arroio do Sal se constrói, entre o silêncio da manhã e o vento da tarde.
Geralmente, é cedo que o mar responde melhor. Mas não é regra. Na tarde de quinta-feira, dia 26, quando a reportagem acompanhou a puxada do cabo, o resultado foi tímido: apenas três peixes na rede. No dia anterior, a cena era outra: seis caixas cheias de 40 kg cada. É assim. Sem garantia. Sem previsão. Mas, quando a rede vem cheia, a euforia toma conta.
Uma vida guiada pelo mar
Para quem vive da pesca, não existe certeza, apenas tentativa, esforço e esperança.

“Tem época que dá bastante peixe, tem época que não dá nada”, resume um dos pescadores mais antigos em atividade de Arroio do Sal, seu Eulario Cardoso da Silva, que carrega mais de 40 anos de experiência no mar.
A rotina começa cedo e pode se estender até a noite. Em dias de grande movimento, o trabalho continua em casa. “É um trabalho puxado. Tem que gostar. Se não gostar, não aguenta”, destaca Adavilson de Bittencourt Reis.
A pesca artesanal faz parte da vida de Adavilson há quase 20 anos, assim como fez parte da vida do avô e, quem sabe, seguirá na próxima geração. “Meu filho tem cinco aninhos e tá aprendendo a fazer rede. Quem sabe daqui a um tempo vai estar aqui comigo pescando”, conta.

Entre desafios e resistência
Apesar da importância para o município, a realidade da pesca está longe de ser simples. Os pescadores relatam dificuldades crescentes, principalmente relacionadas à burocracia e à fiscalização. “Tá cada vez mais difícil. É muita lei, muita exigência. A gente é pequeno, mas muitas vezes é tratado como se fosse uma grande indústria”, desabafa Adavilson.
Para os pescadores, a regulamentação da Pesca Artesanal nem sempre considera a realidade local, o que acaba impactando diretamente o dia a dia da atividade.
Além disso, há desafios que vêm do próprio mar. Redes rasgam, cabos arrebentam, o clima muda e, nos últimos anos, um problema tem chamado ainda mais atenção: o lixo. “Tem muito lixo. Já teve vez de tirar mais de uma tonelada na temporada só da rede”, conta Adavilson e Eulário acrescenta: “é muito plástico, muita sujeira. O peixe até melhorou, mas o lixo aumentou muito mais.”
Expectativa para a sexta-feira santa
Mesmo diante das dificuldades, o novo período de pesca traz esperança. Neste ano, os primeiros dias após a liberação do dia 15 de março, superaram as expectativas. “Tá até acima do esperado. Tá bem bom”, afirma Reis.
A proximidade da Semana Santa, naturalmente, aquece a expectativa de vendas, reforçando que a época é um dos períodos mais importantes do ano para os pescadores. “A gente vende bem nessa época. Se o tempo ajudar, a gente consegue trabalhar”, ressalta da Silva.
Para eles, a legislação estadual deveria ser reavaliada. “O governo podia diminuir o tempo em que é proibido a pesca de cabo durante o dia. Eles podiam liberar no começo de março, porque o período que antecede a Páscoa é muito importante para nós e temos pouco tempo para pesca”, analisa Reis.
Uma profissão sem previsão
Diferente de outras atividades, a pesca não oferece garantias. “Não tem previsão. Tem época que dá bastante peixe, tem época que não dá nada”, resume Reis.
A rotina é intensa: começa cedo, termina tarde e exige esforço físico constante. “É um trabalho puxado. Tem que gostar. Se não gostar, não aguenta”, observa. Ainda assim, quando a rede vem cheia, o sentimento é de recom-pensa, como descreve Reis: “dá trabalho, mas quando vem peixe, a gente se anima. Vale a pena.”
Falta união, sobra amor pela pesca
Entre os próprios pescadores, um desafio interno também é apontado: a falta de união. “A gente poderia ser mais unido. Falta união entre os pescadores”, concordam os pescadores.
A associação existe, mas, segundo eles, ainda precisa de mais organização e participação efetiva. Mesmo assim, o sentimento que mantém todos ali é maior que qualquer dificuldade. “O cara pesca porque gosta”, acrescenta Reis.
Ao final, os pescadores deixam um pedido simples, mas importante: “Cada um tem seu espaço. Tem área de pesca, área de surfe e área de banho… Se todo mundo respeitar, dá certo.” Porque, no fim, o mar é de todos, mas o sustento de muitos depende dele.
Como garantir o peixe fresco
Hoje, a venda acontece de forma direta ao consumidor ou nas peixarias. A Emater está a disposição para te ajudar a encontrar o pescador mais próximo e, assim, fomentar a valorização do setor. Contato da Emater: (51) 99113-9635.









